Para que nunca esqueçam. Quem foi Mestre Lumumba?

0
89

“A exemplo do contra-mestre Léo, não tive uma trajetória e nem mantinha com mestre Lumumba uma amizade cuja regularidade de encontros e conversa permitem dizer que eramos próximos. Mas as vezes, as poucas e valiosas vezes dos encontros afirmo que o aprendizado e o encantamento do papo foram inesquecíveis. Somos de Campinas e um dos grandes encontros com o Mestre foi na Independência da Cultura, evento realizado na cidade do Rio de Janeiro em 2010. A simplicidade e o afeto de Mestre Lumumba é algo para ser cultivado, sempre” Luciano Medina”Da generosidade na partilha do saber…

Por Léo Lopes

Nao tivemos uma trajetória, nem sequer assim posso dizer uma amizade, mas todas as vezes que nos encontramos o senhor sempre me tratou com respeito e uma generosidade sem tamanho…

Lembro e guardarei comigo para sempre. O senhor foi a primeira pessoa que me contou sobre Zé Mundão e suas cobranças na porta da igreja aos Sinhozinho de Campinas. Aquele que sobre o embussa e as rezas dos Capoeiras do passado, quem me entregou o piquipi da caixa no calor do Samba, gritando bora menino oia o cavalo de Xango!

Memórias de afeto e respeito.  “Descanse na luz grande Mestre Lumumba

Uma reluzente estrela nasceu no céu !

Paz e bem à sua família e amigos

Meus sinceros respeitos e sentimentos”

Para que nunca esqueçam, quem foi Mestre Lumumba?

Benedito Luiz Amauro, (re)conhecido como Mestre Lumumba, filho do orixá Ogum, fez-se artista e ferramenteiro desde a juventude.

Em 1973, com a expansão e crescente organização do Movimento Negro no Brasil formou na cidade de Campinas, interior do Estado de São Paulo, o Grupo de Teatro Evolução, que marcou a história do movimento negro brasileiro na contemporaneidade. Neste período, foi ator e criador de vários espetáculos, entre eles Sinfonia Negra (1974).

Na década de 1980, foi assistente de direção do musical da ópera Ongira: um grito africano, com direção de Thereza Santos (1980) e fez parte da formação de uma das primeiras bandas de reggae brasileira, o Arembepe, composto por artistas de diversos estados do Brasil. Em 1982, produz o disco Cafuné, seu primeiro trabalho autoral.

Na mesma década conhece em Salvador (BA), Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, sacerdote do culto dos ancestrais, artista e escritor, que lhe abriu a percepção para o universo místico dos tambores Ilú. A partir deste encontro, iniciou-se na Irmandade dos Tambores Ilú, aprendendo o saber tradicional de sua fabricação e conhecendo sua sonoridade e história. O poeta e compositor descobriu então um caminho, sua vocação, unindo toda a bagagem de artista e militante ao ofício de fazedor de tambor, uma arte feita de corpo, aro, madeira, pele, nós, poesia e laçadas como os gonquis.

Funda, em 1987, em parceria com a Yalorixá Nadya Sant’Anna, sua esposa, um terreiro de Candomblé localizado na zona rural do município de São Luiz do Paraitinga (SP). Trata-se da Comunidade Cultural Religiosa de Matriz Africana Ilê Asè Omò Ayé, que reúne pessoas de diferentes cidades do Estado de São Paulo que compartilham a fé nos orixás, os princípios da vida comunitária e o gosto pela cultura e arte afro-brasileiras. A partir da sabedoria ancestral que diz Koci ewe koci orixa (“Sem as folhas não existe orixá”), o Ilê Asè Omò Ayé defende o princípio da recuperação e preservação da mata nativa de seu terreno, bem como, de todo o seu entorno.

Em 1988, participou do álbum Negros Africamos, ao lado de nomes como Milton Nascimento e Emílio Santiago. No ano seguinte, foi homenageado pelo Centro Cultural São Paulo com o projeto Vinte Anos de Lumumba. O encerramento do projeto foi um grande show com a participação dos 60 alunos das oficinas de construção de tambores e ritmo ministradas por Mestre Lumumba.

No início da década de 1990, iniciou o trabalho Ifé Bogbo Aye (“amor para a terra toda”), espetáculo de canto e dança que reúne a pesquisa de canções tradicionais do imaginário religioso afro-ameríndio brasileiro. Este trabalho de pesquisa acompanha toda a vida do Mestre e tem base em sua vivência desde a infância nas casas religiosas afro-brasileiras em que esta tradição oral era compartilhada pelos mais velhos.

Foto Redes Sociais

No Festival de Inverno de 1992 de Antonina (PR), uma nova versão deste espetáculo foi montada em parceria com o Maestro Álvaro Nadolny, do Coral da UFPR e gravado o CD Segundo Ato. Em 1994, Ifé Bogbo Aye fez turnê na Europa, ocasião em que Mestre Lumumba ministrou oficinas de ritmo em Milão (Itália).

No carnaval de 1997, em parceria com o Mestre Congadeiro Quintino Bento, na cidade de Tremembé /SP, formou a Orquestra do Erê, onde se desenvolvem trabalhos que misturam a cultura popular e a música erudita pelas mãos de jovens e através dos ensinamentos dos Mestres.

Na década de 2000, o projeto Ifé Bogbo Aye foi realizado na Biblioteca Mario de Andrade em São Paulo/SP. Durante 9 meses, por meio de oficinas e do processo de vivência discipular, que envolvia produção de tambores e estudo dos ritmos afro-brasileiros, formou-se uma Orquestra de Tambores com um grupo de 80 pessoas.

Ainda na década de 2000, idealizou e dirigiu o espetáculo O Sopro do Espírito Santo – Uma Suíte Caipira. As composições, frutos da pesquisa realizada entre 1996 e 2005, trazem o universo musical e religioso da cultura popular do Vale do Paraíba, em especial as referências das congadas. Com Quintino Bento, as crianças do Bloco de Erê (Projetos sociais do Vale do Paraíba) e o Coral Gaude, o projeto resultou na gravação de um CD/DVD na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e foi premiado pelo Museu da Cultura Brasileira.

Em 2003, com apoio da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, participou realizando a direção musical e composição do espetáculo Largo da Matriz, de direção e texto de Lino Horas. O trabalho foi realizado com o grupo Pombas Urbanas de São Paulo (SP) em um elenco de 30 jovens.

Nesta década lança o disco Axó, gravado com a participação de Dinho Nascimento e produção de Beto Mendonça pelo Selo Pôr do Som. Axó é um dos melhores registros de seu trabalho, onde sincronizou suas poesias e os ritmos percussivos que domina. É um disco marcado pelo reggae com raízes brasileiras do interior de São Paulo, que usa da linguagem do culto dos orixás.

Atualmente, Mestre Lumumba, preparava a antologia de seus mais de cinquenta anos de trabalho na música, organizando suas composições, recuperando a memória de suas 400 letras musicais, poesias, histórias para o lançamento de seu novo trabalho.

Em paralelo a sua carreia musical, ministrava oficinas, palestras, contação de histórias, teatro e dança por todo o Estado de São Paulo apresentando os resultados dos mais de cinquenta anos de pesquisa da cultura afro-ameríndia formando músicos, luthiers, educadores, gestores e produtores culturais e promovendo a preservação e a difusão de saberes e fazeres tradicionais brasileiros.

Neste dia 8 de abril de 2023, um sábado de aleluia, seu tambor se calou e ele fez sua passagem para outro plano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui